Eletromobilidade: cresce, mas a transição será gradual

Análise especial articulada sobre o relatório da empresa Taranto: «A mobilidade e seu impacto na geração de CO₂»

A transição para a eletromobilidade avança em todo o mundo, embora um recente e exaustivo levantamento da empresa Taranto intitulado «A mobilidade e seu impacto na geração de CO₂» demonstre que a mudança da frota automotiva será muito mais gradual do que se costuma perceber. Embora as vendas de veículos elétricos e híbridos cresçam ano a ano, a enorme quantidade de veículos com motores de combustão que já circulam faz com que a renovação total da frota exija ainda várias décadas.

Uma frota automotiva que continua sendo majoritariamente de combustão

Até dezembro de 2025, a frota automotiva mundial atinge aproximadamente 1,6 bilhão de veículos. Deste total, cerca de 95% continua equipado com motores de combustão interna, enquanto a eletromobilidade — que inclui veículos elétricos (BEV), híbridos (HEV) e híbridos plug-in (PHEV) — representa apenas 5% do total circulante. Esta relação põe em evidência que, apesar do forte crescimento registrado durante os últimos anos, os motores tradicionais continuarão sendo predominantes durante bastante tempo.

 

 Gráfico 1: Distribuição da Frota Circulante Mundial 2025. Fonte: Elaboração própria com base em dados da Taranto.

O crescimento existe e é acelerado

Um dos pontos mais destacados neste estudo é a velocidade com que está evoluindo a participação das novas tecnologias dentro do total mundial. As cifras históricas fornecidas pela empresa permitem ver o salto exponencial:

Isto demonstra um crescimento muito importante em termos relativos, impulsionado por políticas públicas, avanços tecnológicos e uma maior oferta de veículos. No entanto, esse forte crescimento percentual ainda representa uma participação relativamente baixa quando se analisa a frota automotiva completa.

A renovação da frota leva tempo

Talvez o dado mais revelador seja o relacionado aos tempos de renovação física das unidades. Mundialmente, com base em uma frota de mais de 1,6 bilhão de veículos e considerando um volume médio de vendas dos últimos dez anos (estimado em 92.123.000 unidades), a frota automotiva mundial precisaria de aproximadamente 17 anos para se renovar por completo.

Isto significa que, mesmo que todas as vendas futuras fossem exclusivamente de veículos elétricos — algo que hoje está longe de ocorrer —, os motores de combustão continuariam circulando durante muitos anos devido à enorme quantidade de veículos atualmente em uso.

A Argentina mostra uma transição ainda mais lenta

A situação argentina apresenta uma diferença ainda mais acentuada no estudo. Com uma frota próxima de 16 milhões de veículos em 2025, a eletromobilidade representa apenas 0,5%, enquanto os 99,5% restantes correspondem a veículos tradicionais com motores de combustão.

Gráfico 2: Frota Circulante Argentina 2025. Fonte: Elaboração própria com base em dados da Taranto.

Além disso, a lacuna de tempo se aprofunda a nível local. O relatório destaca que na Argentina são vendidas, segundo a média dos últimos 10 anos, 531.538 unidades anuais. Com esse ritmo de emplacamentos, seriam necessários aproximadamente 29 anos para renovar completamente a frota automotiva nacional. Este dado permite inferir que a convivência entre ambas as tecnologias no país será notavelmente mais prolongada do que em outros mercados.

O impacto ambiental deve ser analisado em contexto

Para evitar análises enviesadas, o relatório da empresa nos lembra que as emissões de dióxido de carbono provêm de múltiplas atividades econômicas. O setor de automóveis leves (automotivo) é responsável por aproximadamente 10% das emissões globais, uma porcentagem considerável, porém menor em comparação com outros setores produtivos analisados.

 Gráfico 3: Emissões globais de CO₂ por setor produtivo. Fonte: Elaboração própria com base em dados da Taranto.

Isto sugere que a eletrificação da frota automotiva constitui uma ferramenta importante para reduzir emissões, embora por si só não vá resolver o desafio ambiental global.

O que estes dados implicam para o mercado de reposição?

Para fabricantes, distribuidores e oficinas, as estatísticas mostram um claro cenário de convivência tecnológica. Durante os próximos anos, continuará existindo uma enorme demanda de peças de reposição, manutenção e serviços para veículos com motores de combustão — que representam a grande maioria do mercado atual —, ao mesmo tempo em que começará a crescer a necessidade de capacitação, ferramentas e componentes específicos para veículos híbridos e elétricos.

A transição não substituirá de maneira imediata um mercado por outro, mas obrigará o setor a se preparar para atender a ambos os segmentos de forma simultânea.

Conclusão

A eletromobilidade avança com força e continuará ganhando participação durante os próximos anos. No entanto, os números do relatório da Taranto indicam que a mudança da frota automotiva será gradual e que os motores de combustão continuarão tendo um papel predominante durante várias décadas, especialmente em mercados como o argentino.

Mais do que falar da substituição de uma tecnologia por outra, o cenário atual convida a pensar em um longo período de coexistência, onde fabricantes, distribuidores e oficinas deverão se adaptar a uma realidade cada vez mais diversa.

Dito de outra forma, embora seja evidente que a eletromobilidade está crescendo muito rapidamente, a percepção de uma substituição imediata dos motores de combustão não coincide com a realidade estatística.

Os tempos de renovação da frota fazem com que ambas as tecnologias tenham que conviver durante muitos anos, por isso seria recomendável — enquanto planejamos o que fazer no futuro — não descuidar do presente.

Ver Relatório de Eletromobilidade da Taranto

Por Eng. Fabio A. Di Salvo