Rubens Campos falou em uma entrevista com Javier Flores sobre veículos chineses, pós-venda, IA e eletrificação.
Schaeffler amplia seu negócio para eletrônica e software
Durante uma entrevista na Automechanika Buenos Aires, a Schaeffler analisou as mudanças que a indústria automotiva global atravessa após a incorporação da Vitesco Technologies, empresa do grupo Continental adquirida há um ano. Rubens Campos, vice-presidente de Vehicle Lifetime Solutions para a América do Sul, explicou que a empresa passou de focar unicamente em componentes mecânicos para somar eletrônica, sensores, injetores e software. Segundo detalhou, o grupo incrementou sua estrutura global de 80.000 para 120.000 funcionários e hoje atinge um faturamento anual próximo de 30.000 milhões de euros.
Eletrificação mais lenta e continuidade dos motores a combustão
Campos apontou que o crescimento dos veículos elétricos não avançou no ritmo projetado inicialmente pelas montadoras. Lembrou que muitas montadoras tinham anunciado metas de eletrificação total para 2025 ou 2030, mas esses prazos foram adiados para 2035 e até mesmo 2040. Nesse contexto, a Schaeffler manteve investimentos em produtos vinculados a motores a combustão, como embreagens, transmissões e componentes internos de motor. “O desejo veio primeiro e depois chegou a realidade do consumidor”, resumiu o executivo. Também indicou que a empresa continua desenvolvendo soluções para veículos elétricos e híbridos, embora o crescimento do segmento seja mais gradual do que o previsto.
Veículos chineses: impacto no mercado de reposição
Um dos principais eixos da entrevista foi o avanço das marcas chinesas na América do Sul. Campos destacou que fabricantes como BYD, Chery e GWM já contam com operações industriais no Brasil e ganham participação em diferentes mercados da região. Segundo explicou, o crescimento dessas marcas também modifica o negócio do pós-venda e das autopeças. “Há uma frota importante de veículos chineses e o mercado de reparação tem que se preparar para atendê-los”, apontou. O executivo ressaltou que a Schaeffler também fornece componentes originais para veículos chineses, incluindo embreagens e peças de transmissão. Além disso, alertou que muitas montadoras tradicionais já utilizam peças de origem chinesa em veículos produzidos no Mercosul.
Garantia, suporte técnico e presença local
Diante do crescimento de marcas de “caixa branca” e produtos importados, Campos sustentou que a principal força da Schaeffler é sua estrutura regional. A empresa mantém operações na Argentina há mais de 40 anos e no Brasil há quase sete décadas. “Se uma peça falhar, temos suporte técnico local, garantia e acompanhamento ao mecânico”, explicou. Também ressaltou a importância da qualidade em peças críticas como embreagens e rolamentos, devido ao custo de mão de obra associado a uma reparação.
Crescimento do aftermarket na Argentina
O executivo assegurou que a América do Sul continua sendo um mercado estratégico para o grupo, especialmente pela idade média da frota automotiva regional, que gira entre 14 e 15 anos. No caso da Argentina, afirmou que a empresa registra crescimento de dois dígitos e maiores investimentos. “Estamos trazendo mais produtos e aumentando a presença”, indicou.
Inteligência artificial e digitalização nos distribuidores
Campos também focou na digitalização do negócio de reposição. Considerou que os distribuidores deverão investir em inteligência artificial, automação e análise de dados para sustentar a rentabilidade em um mercado com maior concorrência e margens mais apertadas. Entre os exemplos, mencionou ferramentas que permitem responder automaticamente a consultas de clientes via WhatsApp com preços, disponibilidade e condições comerciais. No entanto, esclareceu que a relação humana continuará sendo central na venda de autopeças na América Latina. “A inteligência artificial ajuda o vendedor, não o substitui”, afirmou.
O desafio de olhar a frota automotiva futura
Outro dos pontos destacados foi a necessidade de que os distribuidores projetem seus negócios em função da frota automotiva que circulará nos próximos anos e não somente sobre vendas históricas. Campos apontou que o crescimento de veículos chineses e híbridos obriga a antecipar a demanda por componentes específicos. Como exemplo, mencionou distribuidores do Uruguai que já analisam ciclos de desgaste de pastilhas de freio em veículos chineses para se adiantarem a futuras necessidades de reposição.
Capacitação técnica para mecânicos
Finalmente, a Schaeffler destacou sua estratégia de capacitação técnica em feiras e exposições do setor. A empresa realiza treinamentos breves orientados a mecânicos, com foco em procedimentos de reparação e diagnóstico. “Cada vez é mais complexo reparar um veículo. Por isso damos informação rápida e prática”, concluiu Campos.
